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SITE BR324 ENTREVISTA FÁBIO RAMOS SOBRE POLÍTICA NORTE AMERICANA

Fabio Ramos de Andrade, é doutor em Gestão Educacional pela Universidade de Oregon, mestre em Administração pela Universidade da Califórnia, e mestre em planejamento pela Universidade de Oregon.

Por Hérick Rios em 25/01/2021 às 15:17:45
Fábio Ramos

Fábio Ramos

Nesta segunda-feira (25) o site br324 entrevistou o capimgrossense Fábio Ramos que mora nos Estados Unidos e Coordena o Programa de Direitos Humanos de Eugene.

Fabio Ramos de Andrade, é doutor em Gestão Educacional pela Universidade de Oregon, mestre em Administração pela Universidade da Califórnia, e mestre em planejamento pela Universidade de Oregon. Atualmente, atua como analista de gestão para a prefeitura de Eugene, no estado de Oregon, Estados Unidos. Nesta função, Fábio coordena o programa de direitos humanos em Eugene, ministra treinamento em gestão pública e participação comunitária, e atua como consultor para as diversas secretarias do governo local. Anteriormente, Fabio atuou como coordenador de programas internacionais na Universidade de Oregon, subprefeito em Salvador-BA, secretário de educação e saúde em Capim Grosso-BA, professor em várias faculdades e colégios. Em Capim Grosso, foi fundador da AEC-TEA Associação.

Br324 - Como a política e tratada nos EUA?

Fábio Ramos - Os Estados Unidos possuem um sistema multipartidário, tal qual no Brasil. Todavia, apenas os partidos Democratas e Republicanos possuem representatividade em todo o país. Na prática, é como se os EUA possuíssem um sistema bipartidário. Nas eleições locais não é necessário a filiação a partidos e cada estado possui sistemas eleitorais distintos. O Partido Republicanos atrai a população mais conservadora, geralmente de orientação evangélica, branca, e moradores de zonas rurais. É um partido que defende pouca regulamentação do mercado, militarização, e direito às armas. O Partido Democratas é de maioria urbana, pessoas com nível de educação mais elevado, além de atrair latinos, negros e outras minorias. Os Democratas defendem mais direitos para minorias e trabalhadores, liberdades individuais, proteção ao meio ambiente, multilateralismo, e promoção de equidade racial. As campanhas locais são feitas por meio de propaganda paga em rádio, TV e jornais e por pequenas reuniões e contatos diretos com eleitores. Não há carreatas ou comícios. A campanha presidencial contém os mesmos elementos das eleições locais com a adição de grandes comícios. Em nível nacional o controle do governo alterna frequentemente entre Democratas e Republicanos.

Br324 - A vitória de Biden é resultado de mudança de discurso da população?

FR - Não, na verdade desde os anos 90 a maioria dos Americanos se identifica com o Partido Democratas. Os Democratas ganharam todas as eleições nacionais desde então. Os dois últimos presidentes republicanos, George Bush e Donald Trump, foram eleitos apesar de terem recebido menos votos que os candidatos Democratas. Isto acontece porque a eleição presidencial nos EUA não é decidida pelo voto direto, mas sim pelo colégio eleitoral. Neste sistema, quem vence em um estado ganha todos os votos que aquele estado possui no colégio eleitoral. Desta forma, as vitórias democratas em estados populosos como Califórnia e Nova Yorque dão aos democratas a maioria no voto popular, mesmo quando eles perdem no colégio eleitoral. Esta é a razão para que a vitória de Donald Trump tenha chocado os Americanos. O mesmo ocorre com os votos para deputados federais. Os Republicanos elegem mais deputados que os democratas mesmo quando eles recebem menos votos nacionalmente. Isto se dá porque os Republicanos desenharam os distritos parlamentares de uma forma que os beneficia.

BR324 - Há diferenças entre brasileiros e americanos na forma de seguirem seus líderes?

FR - Cada povo tem tradições políticas próprias. Nos EUA os eleitores fazem doações para financiar as campanhas e não esperam receber algo em troca de seu voto. No Brasil especialmente em cidades pequenas, ainda há muita compra de voto em troca de favores e promessas, ou assistencialismo por parte de candidatos a vereadores. Este assistencialismo no Brasil é financiado pelas prefeituras. Ou seja, prefeitos financiam vereadores com recurso público em troca de apoio eleitoral e de votos favoráveis nas câmaras de vereadores. As eleições para prefeito, vereadores e deputados estaduais nos EUA não empolgam os eleitores. Muita gente escolhe seus candidatos apenas na hora do voto, após lerem os currículos de cada candidato no folheto eleitoral. Nas eleições nacionais, as pessoas se envolvem de acordo coma ideologia. Obama foi eleito com forte mobilização entre os jovens e minorias. Trump se elegeu por conta da baixa participação de jovens e negros em vários estados de maioria democrata. Biden foi eleito com forte mobilização de mulheres e minorias raciais frustradas com os discursos racistas de Donald Trump. No Brasil, há mais gente que vota por se identificarem com o candidato a presidente e menos por identificação ideológica. Recentemente, os movimentos em torno de Donald Trump e Bolsonaro foram muito parecidos. As campanhas dos dois foram baseadas em notícias falsas, desinformação e demonização de adversários.

BR324 - Quais são as principais diferenças entre Joe Biden e Donald Trump?

FR - Os dois não poderiam ser mais diferentes. Biden é um político centrista com muitos anos de experiência em Washington. Trump é um empresário e celebridade de TV sem qualquer experiência política até ser eleito presidente. Biden vem de família pobre e defende direitos de trabalhadores, educação, meio ambiente e apoio a imigrantes. Trump vem de família rica, esteve envolvido em vários escândalos e fraudes em suas empresas, adotou a ideologia republicana recentemente e fez uma campanha contra imigrantes, minorias, globalização e proteção ambiental. Enfim, eu e a maioria dos americanos estamos aliviados que o governo de Trump chegou ao fim. Foram quatro anos de crises e constante caos.

BR324 - Por que Trump não quis deixar a Casa Branca?

FR - Trump é uma pessoa incapaz de sentir empatia ou respeito por outras pessoas. A história dele e sua riqueza se baseia em fraudes e exploração de trabalhadores, clientes e parceiros comerciais. Trump sempre teve instintos ditatoriais. Ele admira líderes fortes e fez elogios a Putin, Kin Jon Um, Duterte e outros personagens históricos que não respeitaram o regime democrático. Ele criou uma imagem de alguém que sempre vence e que não depende de ajuda de outras pessoas. Após a derrota para Biden, Trump criou uma campanha para reverter o resultado das eleições e arrecadou milhões de dólares de seus apoiadores. Quanto mais ele questionava as eleições mais dinheiro era doado para sua campanha. 75% de tudo o que foi arrecado pode ser usado como ele bem entender. Trump possui várias dívidas em seus negócios e certamente tentará usar este dinheiro para benefício de suas empresas. Há várias investigações em andamento sobre desvio de recursos de sua campanha para as empresas pessoais dele e da família. Trump fez seus eleitores doarem cerca de 500 milhões de dólares.

BR324 - O que muda na relação Brasil-Estados Unidos com a eleição de Biden?

FR - Bolsonaro se inspirou em Trump e adotou em sua campanha as mesmas técnicas usadas por Trump em 2016. O presidente brasileiro se aliou ao americano mesmo quando as posições de Trump eram ruins para o Brasil. Bolsonaro também se alinhou a Trump para atacar as medidas de proteção ambiental. Um mês após a eleição, Bolsonaro participou do Fórum Econômico de Davos e lá, disse ao ex-vice presidente dos EUA, Al Gore, que ele queria explorar as riquezas da Amazônia em parceria com os EUA. Al Gore é um líder mundial na defesa do meio ambiente. Esta e outras falas de Bolsonaro são exemplos de um presidente que se vende como um grande patriota, mas que age contra os interesses da nação. Com a eleição de Biden, Bolsonaro e seus seguidores repetiram as mentiras espalhadas por Trump de que as eleições americanas foram fraudadas. Eu acho que esta postura vai dificultar uma relação mais próxima com Biden. Os Democratas vão exigir mais esforço do Brasil na proteção ambiental. Bernie Sanders está no comando da comissão de orçamento do senado americano e vai usar esta posição pra pressionar o governo brasileiro.

BR324 - Há uma campanha contra as vacinas para prevenir a COVID-19 nos EUA? Você vai tomar a vacina contra o coronavírus?

FR - Trump, tal qual Bolsonaro, não tratou a pandemia de COVID-19 com seriedade. Ele não adotou uma política nacional e tentou boicotar as medidas adotadas pelos governadores. Enquanto o número de mortes crescia, Trump tentava fazer o povo acreditar que tudo estava sob controle. Sem qualquer base científica, Trump iniciou um movimento pela adoção de Hidroxicloroquina como uma solução para a COVID-19. A campanha dele contra as medidas de isolamento social também influenciaram a crença nas vacinas. Aqui nos EUA há muita gente que acredita nas teorias de conspiração que relacionam síndrome de Down com vacinas. A retórica de Trump fez o número de pessoas que não confiam em vacinas aumentar. Eu acredito em vacinas e vou tomar uma assim que for possível. Espero que os brasileiros que sempre confiaram em vacinas não se deixem influenciar pelas besteiras ditas pelo atual presidente brasileiro.

Br342.com.br

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