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• IRMÃO CONTRA IRMÃO

Por Agnaldo Santos e Herick Rios em 19/02/2021 às 15:59:37
Antoniel Alves é o novo colunista do br324

Antoniel Alves é o novo colunista do br324

Ao longo destas 21 edições, o reality Show da Rede Globo, o Big Brother

Brasil, tem prestado um grande desserviço para a formação intelectual, cultural

e humana ao povo brasileiro. Nestes 21 anos nos quais o programa tem ido ao

ar, já se viu e se vivenciou de tudo entre as quatro paredes da "casa mais

vigiada do Brasil".

Eu, como todo cidadão, dei minhas "espiadinhas" pelos idos de quando o

reality show se iniciava e, com a mais franca sinceridade, não gostei do que vi.

Digo isso, pois, vi o império do machismo (em todas as edições), vi

escancarada a xenofobia, vi homofobia, à luz do dia (sim, pois como todo

reality show, sua transmissão é feita vinte e quatro horas), vi sexismo.

Situações que opõe as pessoas no dia-a-dia no Brasil, expostas normalmente,

sem ao menos, se exigir que sua classificação seja para fora do horário nobre

da televisão. Ora, nos dias de hoje as pessoas não dormem mais às 22:00h ou

23:00h.

Como disse, já vi de tudo neste famigerado reality show e, quando pesava já

não ter mais o que ver, o programa BBB se supera. Me refiro aos últimos

acontecimentos ocorridos na selva de quatro paredes, sim uma selva, pois, tal

como em uma selva, a vida do outro competidor de nada vale, o que vale é a

sobrevivência ali. O que vale é viver "espasmos de liderança, mesmo em saber

liderar a própria vida, o que vale é o que está em jogo, milhões de reais e uma

fama que não alcança a todos, prova disso é que não se sabe o que faz na

vida "brothers" como Kleber Bambam, Dhomini, Cida Moraes ou Mara Viana

que não se tornaram celebridades, assim como, Grazi Massafera e Jean

Wyllys.

Deixemos a busca pela fama de lado e, sigamos. Dizia eu que esta edição

surpreendeu, já quando se achava que já se tinha visto de tudo por lá e, ao

dizê-lo me refiro ao da edição trazer entre os competidores seis personagens

negros, ao menos de cor, Nego Di, Camila de Lucas, Joao Luiz, Lumena,

Lucas Penteado e Karol Concá, todos irmãos de cor.

Embora, irmã na cor, os seis participantes foram soltos na "selva "do BBB e de

tudo fazem ou fizeram na tentativa de se manter, na busca de morder o anzol

do prêmio de R$ 1,5 (um milhão e meio de reais), revelando seus mais

animalescos instintos e, me perdoe o leitor aqui a redundância: machismo,

xenofobia, homofobia, sexismo. Instintos aforados pela necessidade de

sobreviver por milhões de reais, sobreviver por uma fama que, ao fim e ao

cabo, não chega a todos. Observando de tudo isso numa tarde dessas, me

lembrava já ter visto uma cena parecida, quando minha mente ociosa me

remeteu ao Bruxo de Cosme Velho, o escritor Machado de Assis (em honrosa

memória).

Dentre os muitos escritos de Machado, merece destaque, para este escrito em

particular, o conto "pai contra mãe"¹. Num pequeno escrito de creca de onze páginas, o gênio da literatura brasileira, relata os terríveis cenários do dia-a-dia

dos negros escravizados, à época da escravidão, razões pelas quais, quando

oportuno, muitos fugiam das senzalas. Nestes relatos, sobressai-se a figura de

um "mulato", Candinho. Candinho, sujeito não afeito ao trabalho, já tinha

tentado de todos os ofícios e, a nenhum se apegava, decide por enveredar no

ofício de caçar negros fugidos. Ora, a profissão de "capitão do mato" era a das

mais vantajosas e não carecia de muitos esforços, senão o de acudir aos

classificados dos jornais, ficar na tocaia e investir na captura do negro fugido...

o que não era tarefa difícil para Candinho, dado o porte físico que tinha... a

remuneração não era das piores, segundo descreve o contista. Candinho,

aguardava capturar uma negra fugida para qual se ofertava uma recompensa

de 200$ (duzentos réis). Estando entre o advento de seu primogênito e o peso

da pobreza, situação que o obrigava a dispor de seu folho na Roda dos

enjeitados, para que a fome e a miséria não o matassem e, do mesmo

infortúnio, aos seus irmãozinhos, Candinho se dirige em direção ao portal do

convento para ali deixar a criança, quando, de passagem percebe um vulto, era

a tão esperada oportunidade para ganhar algum dinheiro, voltar para casa e ter

com sua família uns dias de sossego financeiro.

Parte então Candinho a capturar aquela "presa humana", negra fujona que

para seu dono deveria ser devolvida, até que a alcança.

Ao socos e pontapés, arrastando-a pelas ruas, apesar de seus gritos de

socorro e por clemencia, às suplicas por piedade, pois, estava esperando um

filho, razões que não pararam a gana do algoz que, naquela ocasião se

encontrava à beira de perder o seu, por causa da miséria na qual vivia, até que

chegaram à casa cujo endereço constava do anúncio que o mulato carregava

no bolso, entrega o premio e recebe a recompensa, quando percebera que

naquele momento, a mulher já agonizava das dores de uma perda prematura

do filho que carregava. Toma Candinho os seus duzentos contos de réis (200$)

e parte para casa, com a alma leve pois, não mais careceria de colocar o seu

único filho na Roda dos Expostos para ser criado por um estranho sem que

mais nunca o pudesse ver, muito embora, não lhe saísse da cabeça a imagem

daquela mulher abortando e sendo surrada pelo seu senhor a quem a

entregara. "Nem todas as crianças vingam" é o pensamento que lhe vem.

E o jogo do Big Brother? Voltemos a ele.

Nesta temporada do Big Brother, a presença de seis personalidades negras, o

que deveria enriquecer o ideal de pluralismo, multiculturalismo e

multirregionalismo, revelou o quanto somos racistas, xenófobos, homofóbicos

sexistas (de novo redundante), digo no plural porque aquelas personagens,

muitas vezes, revelam o comportamento de vida na sociedade brasileira.

As cenas transmitidas pelo BBB, revelam o quanto temos de Candinho. O

quanto somos capazes de rifar a história, de apagar a memória, de nos

apegamos àquilo que nunca seremos, mesmo à custa da vida de outros irmãos

da mesma raça. Por um punhado de réis, por um segundo de fama, nos

tornamos algozes dos nossos iguais. Capitães do mato a serviço do sistema

separatista de nossos dias, não obstante os gritos e as dores que se provoca.

Caçamos-lhes a sorte. tolhemos-lhes a existência.

1. Link de acesso ao conto: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/11-textos-dos-

autores/793-machado-de-assis-pai-contra-mae

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